Uma História MaLucca — Capítulo 7 — Heloísa Consone
Malu Cavalcanti
E como já devem esperar, ainda é um "parto" para Lucca precisar de ajuda para quase tudo. Temos dormido juntos desde que saímos do hospital, o que aconteceu na manhã de segunda e hoje já é quarta, isso só foi possível, porque somos dois "espaçosos" e ambos os quartos tem cama de casal. Estamos fazendo isso de dormir juntos porque ele ainda precisa de ajuda para coisas básicas como se levantar. Tudo precisa ser feito numa calma estrema, e ele?! Já cansou de não ter independência alguma e de ler os 3 livros que ele tinha pendente para leitura.
Lucca sempre devorou livros, o mais puro dos nerds, mas me contento em saber que o futuro engenheiro não devora livros cálculo, ele gosta de mistérios, suspense e ficção, seu quarto tem uma prateleira que só não é gigante porque boa parte dos seus livros ficaram no Brasil, lá na casa dos pais ele tem uma biblioteca mesmo!
Eu gosto de ler, é bom, legal sair um pouquinho da vida real, mas ele exagera! O querido que devora um livro por semana, quase acabou com três em poucos dias por puro tédio e talvez tentativa de fugir a realidade que para ele está sendo bem difícil agora.
Me dói ver ele assim, parece até que ele perdeu o brilho, entendo ele tá tomando remédios e sim, é um tédio não poder fazer nada! E pior mal poder fazer algo sozinho, ele tá tipo “preso”, só que pior do que uma cela, ele está preso no próprio corpo.
Apesar dos pesares… Ele já entendeu que pode contar comigo, até porque ele não tem outra opção, e eu acho fofo porque mesmo sabendo disso ele hesita e muito, é toda uma novela até ele confessar; primeiro ele fica pensativo, depois encarando com aqueles olhos verde claro dele no canto do olho até tomar coragem e finalmente olhar para mim e tomar mais uma dose de coragem para chamar meu nome, e isso acabou de acontecer.
—Que?
—Quero levantar. —Disse dando um suspiro e largou o livro que ele havia começado.
Ele parecia cansado, tirou os óculos pretos, esfregando o rosto e depois colocou de novo, até porque se fica sem, ele realmente não vai ver nada.
—Eu acho que vou deitar um pouco.
—É acho que vai ser bom pra você. —Concordei e ele assentiu. —Venha.
Disse e me levantei fechado a romantasia que eu lia com o celular dentro para marcar a página. Fiquei de frente pra ele, que usou meus ombros como apoio se levantando com cautela.
—Valeu.
—Quantas vezes eu vou te dizer que não precisa me agradecer, hein?!
—Infinitas, mais um.
—Infinitos… Infinitos mais um?! —Confesso que eu demorei um pouquinho pra processar. —Não existe infinito mais um! Infinito mais um é infinito!
—Tá bem espertinha pra quem era ruim de matemática. —Ele provocou.
—Hei eu não era ruim em matemática!
—Passava nas provas como mesmo…?!
—Ah Lucca! O William não explicava porcaria nenhuma! —Citei o nome do nosso professor de matemática do ensino médio.
—Só você pegou birra dele, e isso foi depois que você tirou cinco e quase surtou com isso.
—Aí tá bom Lucca, deu desse assunto!
—Tá bem, tá bem. Não quero te irritar, se deu, deu, tem razão, passado é passado. Bom deixa eu beber água.
—Não ia deitar?
Confesso que as vezes pela quantia de remédio eu tenho medo dele começar a não falar coisa com coisa, e por mais que isso não tá acontecendo eu por vezes pergunto o óbvio.
—Vou, mas quero beber água primeiro.
—Tá bem, vou ficar aqui, quando for para cama me chama, não vai
—Deitar sozinho... ---Ele debochou. ---Já sei disso, não precisa ficar me lembrando o tempo todo “mãe”. —Ele concluiu no mesmo deboche revirando os olhos e eu revirei também pela brincadeira dele.
Tá bom, eu tava mesmo parecendo uma mãe chata que fica mandando o tempo todo, mas que culpa eu tenho se ele as vezes desobedece porque jura que já pode fazer sozinho.
Ele foi até a cozinha, esperei na sala, dando uma olhada na varanda, e no sol das 14:00 que começava a ficar um pouco mais forte nesse de outono nublado.
—Vai deitar agora, “filhinho”?! —Provoquei, quando vi ele na mais pura da rebeldias indo em direção ao corredor dos quartos do apartamento e ele riu levemente.
—Pera um pouquinho. Quero ir no banheiro.
—Tá bem. Quando for para o quarto me chama.
—Já disse isso. —Ele revirou os olhos com a minha ordem.
—E repito pra você não ousar desobedecer. —Tornei franca em um leve deboche.
—Af. —E… os olhos dele vão cair de tanto que ele revira! —Dá licença, vai. —Disse ainda emburrado se retirando do recinto.
Resolvi dar uma pequena organizada na sala, é acho que o tédio me invadiu também porque confesso que eu sou super desleixada. Não estava a pior das bagunças, na real nem estava, só fiquei com uma “espécie de toc” quando vi o controle jogado no sofá e comecei a querer colocar algumas poucas coisas no lugar. Sabia que não daria tempo de fazer muito… Ou daria?
Ah legal, morreu naquele banheiro?!
Tá bem, não fazia tanto tempo assim, mas uns cinco minutos devia fazer. Comecei a me questionar se devia ir ver se estava tudo bem, é, talvez minha preocupação foi maior do que o meu juízo em pensar que isso seria errado…
"Meu Deus Maria Luísa, deixa o menino ir no banheiro!" ---E pensar que eu quase bati na porta, se não fosse um acesso de juízo que me atingiu na hora!
Saí como era o mais plausível a se fazer! Que maluquice! Se passaram minutos, minutos apenas! Se ficasse horas é que eu deveria me preocupar, estou paranoica, melhor eu lavar louça!
Ainda encafufada por ele provavelmente ter tido a audácia de sentar sozinho, mas ele não é burro, deve ter se apoiado na pia ou coisa do tipo. Talvez eu devesse parar de ficar neurótica atrás dele. Ele não é uma criança que precisa ser controlada para não sair correndo depois que operou, e acho que dar um pouco de espaço talvez deixe ele até melhor.
Continuei minha ligeira organização ajustando a louça que havíamos deixado do almoço. Estava distraída, quando senti um toque afetuoso chegar por de trás de mim. Me rescostei naquele corpo que perto de mim talvez fosse um pouquinho enorme. Me abaixei só um pouco pra que minha cabeça ficasse no seu peito, enquanto enxaguava a última caneca que estava ali.
É a gente tem muita intimidade, claro que tem! Pensem que duas pessoas se conhecem desde bebês, porque é exatamente isso. A gente é tipo irmão gêmeo, poucos meses de diferença me fazem mais velha do que ele, nasci em Julho, ele em outubro.
E fiquei ali, sentindo o abraço do rapaz que calado, sorria tranquilo.
---Está, tudo bem? ---Questionei, por precaução e ele riu.
----Tá tudo ótimo. ---Disse ainda rindo. ---Aí calma. ---Ele se recompos, acho que os pontos doeram um pouco quando ele riu. ---Acho que não tem nada de errado com a minha cirurgia não. ---Confessou com certo acanho.
---Viu? Te falei que era normal.
---É... Era. ---Ele afirmou mais tranquilo, mas ainda constrangido.
E a quem não está entendendo uma virgula, Lucca estava paranoico querendo voltar pro hospital, surtando preocupado, por causa de uma misera, constipação, alguém avisa que ele acabou de operar o intestino? Quem vê ele sempre calmo nunca vai imaginar que quando ele cisma, ele fica maluco! Mas sim, ele fica! Fica ao ponto de ter me contado isso.
---Só me diga que tomou cuidado.
---Sim, Malu, fica tranquila, apoiei na pia.
—Otimo então, agora me solta pra eu poder sair da pia? —Aproveitei o gancho e ele deu um suspiro, que pareceu até abatido.
—Claro. —Disse num meio riso que pareceu até forçado como se ele tentasse disfarçar algo, mas relevei. Ele se afastou, me encarou por alguns instantes pensativo. —Deita comigo?
—Por que quer que eu deito contigo? —Disse removendo o avental molhado.
—Porque você anda fazendo tudo, precisa descansar também.
—Não estou cansada, Lucca, está tudo bem.
—Vai Malu, por favor! ---Ele murmurou.
—Ficou carente Lucca?!
—Fiquei. —Disse me abraçando de novo, só que agora de frente.
Esquisito?! Muito. Mas não vamos esquecer que ele anda tomando um antibiótico dos fortes, e isso deve estar mexendo com a cabeça dele porque do nada ele começou a dar dessas de buscar afeto e eu as vezes acho lamentável que essa versão carente dele só vai durar 14 dias, porque é muito fofo de ver.
Eu topei, topei a carência medicinal dele, e apesar de tudo ele tinha razão, não queria assumir mas eu estava um pouco cansada e também ando meio abatida com uma coisa mas ele não precisa saber.
Ajudei ele a se “deitar” primeiro, e depois me coloquei ao lado dele. Em instantes Lucca procurou a minha mão e me encarou abatido, mesmo que agora aos olhos dele eu provavelmente seja só um borrão.
—Você parece triste. —Soou preocupado.

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