Uma história MaLucca — Capítulo 6 — Heloísa Consone
E quando eu finalmente consegui dormir, no sofá do quarto, uma enfermeira entrou. Eu acordei desnorteada com a voz e a pouca luz que ela acendeu, parecia que quem tomou anestesia fui eu! Tava sonhando e por segundos demorei pra assimilar aquela moça negra que falava comigo em espanhol.
—Anh... Sim? —Eu tava tão perdida que falei em português com a mulher depois dela me dizer seu nome e informar que iria medir os parâmetros dele e verificar a medicação.
—Su hermano? —Anh, no. Mi novio.
Como eu explico que dei entrada no hospital como namorada dele, para assim poder acompanhá-lo porque foi isso que eu fiz. Bem mais fácil do que eu dizer que sou amiga dele desde que nasci e que somos dois brasileiros sozinhos em Buenos Aires.
—Ah sí. Sepa decirme el nombre completo y su data de nascimento?
—Lucca Moretti Giordanni, 09/10/2006.
—Perfecto. —Disse conferindo uma medicação que trouxe. E foi medir os parâmetros.
Quando ela colocou o aparelho de pressão com cuidado e acionou ele deu um resmungo confuso.
—Meu braço. —Disse meio perdido e abriu os olhos desviando para todos os lados tentando processar tudo ao seu redor.
—¿Sí, qué hiciste para estar tan fuerte? —A enfermeira questionou e ele demorou um pouco para responder.
—Exercício.
Quem ler vai achar que ele é uma geladeira eletrolux duas portas, mas não, ele não é tão raro de academia, só um jovem que se cuida.
—Muy bien. Todo normal. ¿Cómo te sientes? —Sono. —Respondeu pausado, a mulher.
—¿Quieres dormir? —Questiona e ele assente só com a cabeça. —¿Tiene dolor?
—Tengo sono. —Disse misturando as línguas com sono pesando em suas pálpebras, mas ele abriu-as mais confuso. —Tá tudo embaçado.
Claro! Com a miopia gigante dele! Mas não vamos julgar o anestesiado.
—Porque está sem óculos, Lucca. —Disse, fazendo-o pensar um pouco, ele piscou algumas vezes e levou a mão ao rosto e no que se mexeu fez uma careta que transmitia um certo desconforto.
—É verdade. —Afirmou.
—Creio que sí...
—No, Lucca.
—Não? —Eu neguei-lhe com a cabeça. —Por isso.
—Lucca. —A enfermeira chamou o fazendo olhar para ela. — ¿Ya pudiste orinar? —Ele demora
alguns segundos. Olha para todos os lados, pisca algumas vezes e fita na minha direção e depois
voltou a olhar para a profissional.
—Por isso o que? —Questionei a ele que demorou um pouco pra responder e tocou aparentemente o
próprio ventre, não vi direito pois ele estava coberto.
—Minha bexiga vai explodir. —Disse e pouco depois franziu a testa ficando em silencio por alguns
instantes pensativo com um ar de estranhamento. —Eu to duro. —Concluiu baixo olhando para si
mesmo.
Eu gelei, diferentemente da enfermeira que calma, prontamente apenas questionou-lhe se ele achava
que conseguia levantar ou se simplesmente preferia que ela trouxesse um urinol, fazendo o coitado do
Lucca arregalar os olhos, por achar aquilo o cúmulo do absurdo.
—Nem fudendo! —Confesso que nunca pensei que algo assim sairia da boca do nerd todo
politicamente correto do Lucca... Mas depois disso ele teve um acesso de consciência e arregalou os
olhos meio acanhado. —Perdón... Me asusté. Pero, prefiero ir al baño.
—Está bién. Venga, voy ayudarte.
E foi assim que a profissional começou aos poucos e devagar o ajudar a ficar de pé, sempre tomando
cuidado e questionando se ele estava “mereado”, confesso que não conhecia essa palavra, mas agora
eu sei que significa “tonto”.
O tempo todo, ela foi me mostrando como fazer para ajudá-lo das próximas vezes, apesar de eu ser
nanica perto daquela alta e aparentemente, forte mulher, não parece tão difícil, é basicamente só servir
de apoio e ficar atenta para caso a pessoa caia ou passe mal.
Lucca deu poucos passos, segurando a própria barriga e sua expressão revelava que ele estava
achando algo estranho.
—Tiene dolor?
—Un poco pero no es esto. —Ele deu um pequeno tempo. —Parece que tudo se mexe dentro de mí.
—Ele ainda misturava as línguas, mas Mariana conseguiu entender.
—Es normal. Es por el gas de la cirugía. Va a mejorar ¿Está bien?
—Sí.
—¿Podemos continuar? —Questionou a ele que assentiu.
—Gracias. Puede ir ahora.
— ¿Te dejo, solo con su novia?
Tudo parecia acontecer em câmera lenta e aquilo me deu uma dor que parecia imensa, queria um
analgésico mental, que me fizesse pensar único e exclusivamente que é só uma fase.
Quando chegaram a porta, o próprio Lucca abriu, virou o rosto para a enfermeira e disse:
—¡ Déjenme solo! —Disse de uma forma que pareceu até uma súplica. —Quiero orinar, y soy un
hombre, ¡por favor! No necesitas ver esto, puedo hacerlo solo, estoy bíen.
Eu confesso que parece inacreditável: madrugada, uma da manhã ele recém operado, ainda sobre
efeito de anestesia e sua maior preocupação é poupar eu e enfermeira. Mas é o Lucca e vindo dele não
me surpreende, se precisar ele carrega o peso do mundo sozinho e ainda lhe oferece a mão ao mesmo
tempo, ele é alguém que quase nunca pede ajuda e nem sequer, deixa ser ajudado.
Já foi um parto convencer ele a ir no hospital, quem dirá convencer ele de que agora o cenário é
outro e sim, por alguns dias ele vai perder sim a autonomia e não há o que ser feito ele ia precisar de
ajuda e isso não é um problema, o problema mesmo vai ser convencê-lo disso.
Eu jurava de pé junto que Mariana não deixaria de forma alguma, mas para minha surpresa ela
apenas questionou se ele se sentia tonto novamente e quando ele disse que não, a única ressalva de
Mariana foi que ele não trancasse a porta e avisou que qualquer coisa estaria aqui.
Então a mulher começou a conversar comigo, perguntou meu nome, questionou se Lucca havia
comido, se estava bebendo água e me informou que ele poderia trocar de roupa.
Lucca ainda estava com aquele avental descartável que dão no hospital, mas Mariana tinha razão em
me dizer que ele parecia estar sentindo frio, afinal eu também notei isso nele.
Não demorou muito para que ele aparecesse e a enfermeira questionasse se ele estava bem e quando
respondeu que sim, eu recebi uma tarefa, a de provar que tinha aprendido com a aula dela que me
disse pra eu ajudá-lo para ter certeza que eu tinha entendido como ajudar, e eu consegui.
—Eu quero deitar. —Disse logo que o ajudei a ficar sentado na cama, era nítido que ele morria de
sono.
—Lucca, não quer ao menos por uma blusa? —Posso?
—Sim, pode. Quer só por a blusa ou quer trocar toda a roupa? —Essa minha pergunta o fez pensar por
um tempinho.
—Dá só a blusa vai. Não quero ficar pelado.
Eu confesso que quis rir por essa cisma dele, mas me contive, porque eu sei bem o que tá por trás
dessa “teimosia”, o medo de incomodar. Eu não quis teimar com ele porque vi o quão exausto ele
estava, apenas o ajudei a vestir a blusa que tinha separado porque o acesso atrapalhava um pouco e
depois com calma dei suporte para que ele se “deitasse” com segurança. Ponho em aspas porque
quando se passa por uma apendicectomia “deitar” é apelido! Lembro de quando fiz e demorou meses
para que eu pudesse deitar normalmente de novo, você tem que dormir quase sentado e reto, você em
suma fica semi deitado de barriga pra cima.
Mariana ainda estava ali, afinal de contas tinha que trocar a medicação venosa dele e pediu o braço
dele para fazê-lo, verificando o acesso.
—Cierto. Todo bien. —Afirmou iniciando o procedimento. —Ahora es solo el soro, pero se sentir
algo, puede llamar. ¿Cierto?
—Sí. —Ele assentiu visivelmente cansado, mas ficou um pouco pensativo. —Puedo... —Ele iniciou,
mas demorou um pouco pra completar e desviou os olhar para a mesinha que tinha no quarto. —¿El
agua?
—Puede sí, no bebeu água?
—No lembro... No recuerdo. —Corrigiu o erro. —Pero... Quiero.
—Maria. ---Mariana chamou-me enquanto eu pegava a água. —Mira, el dormío.
—Lucca, vou pegar, está bem? —Questionei em português mesmo porque achei que facilitaria a
compreensão confusa que ele tinha nesse momento. Ele assentiu com a cabeça.
—Gracias. —Soou fraco e eu me senti meio idiota por ter me preocupado em ele não me entender. Ele
só tava sonolento, como alguém que passou uma noite em claro, entendia boa parte do que se passava
ao redor.
Ele tinha dormido mesmo, confesso que fiquei em dúvida se devia ou não acordá-lo. E preferi
questionar a ela que apenas disse para fazê-lo devagar e ela nos deixou, apenas me informando que as
quatro ele teria uma medicação e disse que qualquer coisa, poderíamos chamar a enfermagem.
Mexi levemente nos cabelos dele, que sorriu no instante que fiz isso, ele sorrir a mim pareceu o tal
analgésico mental que dantes eu queria. Agora eu tive, aquilo foi como a afirmação que eu precisava
entender, o recado que realmente dizia: Vai ficar tudo bem.
—Lucca. —Confesso que me foi lamentável acordar ele, porque ele tava com uma expressão tão
genuína e tranquila, que me deu dó de acabar com isso.
Devagarmente, suas claras verde íris se revelaram, exaustas, mas mesmo assim ele estava atento a
mim.
—Quer água?
—Já bebi água.
—Sim, mas já faz um tempinho.
—Foi agora.
—Não foi agora, você pediu água, não bebeu. —Afirmei e ele ficou quieto pensativo.
—É.
—Lembrou? —Ele assentiu com a cabeça. —Pega aqui. —Tornei lhe dando o copo.
—Brigado.
—Imagine, agora toma, tá bom? —Ele assentiu e começou a beber devagar.
—Aí. —Ele murmurou baixo no primeiro goleiro levando uma mão ao estômago.
—O que foi?
—Fizeram alguma coisa com o meu estômago, quando eu sair daqui eu vou falar com um advogado. —Não fizeram nada com o seu estômago. É só o gás que usaram Lucca.
E lá fui eu explicar de novo que essa sensação que ele tinha de “engolir uma pedra” toda vez que
ingeria algo era normal, ele falou a mesma coisa quando liberaram ele pra comer e beber e depois
disso todas as vezes que ele bebeu água ele disse o mesmo, ele cismou que o hospital cometeu um
crime e que ele tinha que abrir um processo. Essa sensação é péssima mesmo, mas vai passar daqui
algumas horas, talvez em um dia, por aí.
Apesar de achar ruim o que sentia ao beber, ele pediu até mais um copo, mas não quis mais depois
disso. Fui deixar o copo na mesa e quando voltei meu olhar para ele, Lucca esfregava os olhos. Fui
até ele, perguntar se precisava de mais alguma coisa, fiz cafuné na sua cabeça o fazendo olhar para
mim e questionei.
—Preciso dormir. —Confesso que eu quis rir, mas entendia essa sensação. —Pode dormir, tá bem? —Afirmei e ele assentiu.
—Você vai ficar aqui?
—Não.
— “Não” o que?
—Vou, Lucca. Se precisar de algo me chama, tá bem? —Afirmei e ele assentiu, então soltei seu
cabelo. Mas nisso ele pegou a minha mão.
Ele piscou e balançou a cabeça como se tivesse saído de um transe. —Nada. —Disse num suspiro meio decepcionado e me soltou. —Fala Lucca.
—Não, não é nada, tá tudo bem.
—Mesmo? —Ele assentiu com a cabeça.
—Uhum. Boa noite. —Disse como se me dispensasse. —Boa noite.
Disse, mesmo não estando completamente convencida de que ele estava falando sério. Pra mim ele
mentiu e minha mente tola faz questão de jurar que aquele “não” dele foi um impulso porque ele não
queria que eu soltasse seu cabelo. Ele não admite, mas eu sei que ele gosta de um carinho na cabeça,
apesar de carência definitivamente não definir ele, talvez a anestesia e remédios mexeram um pouco
com o psicológico e talvez por isso pela primeira vez ele quase assumiu que gostava daquilo, mas um
acesso de juízo, o fez voltar a fingir ser a muralha impenetrável.
Tente o quanto quiser, mas eu já tenho as chaves há anos e sei onde é a entrada da sua fortaleza,
Lucca Moretti...

Kkkkkkkk.... Estou como?
ResponderExcluirPrimeiro - estou me achando bilíngue literária por ter entendido tudo. Ameeeeei
ResponderExcluirSegundo - rindo horrores desse nosso nerd 🤓 pobrecito 🤣🤣🤣
ResponderExcluirTerceiro - quero mais ☺️ porfa
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