Uma História MaLucca — Capítulo 5 — Heloísa Consone

 


Malu Cavalcanti  


  Vinte uma e quarenta e três, essa foi a hora que o nome de Nina brilhou na tela do celular dele que estava comigo. 

  Mas gente! Desde quando deram celular para essa menina? Até onde eu sabia ela não tinha. 

  Não me importei com isso, apenas atendi a ligação.

  

—Alô? Nina?


—Malu? É você? —Estranhei ela ter dito tão baixo, tipo um sussurro, mas relevei. 


—Sim. Está tudo bem?


—Não, Malu. —Disse com a voz um pouco trêmula e começou a soar como se estivesse chorando. —Cadê o meu irmão? —Questionou e pareceu abafar um soluço. 


  Ah ótimo, como é que eu explico pra uma criança de dez anos que o irmão dela acabou de passar por uma cirurgia? 

  Lucca realmente estava com apendicite e preferiram operar ele ainda naquela noite, não porque estava sério, não estava tão aumentado ainda, porém quando o médico informou a ele que evolui rapidamente e ficaram com receio de ter que operá-lo as pressas no meio da madrugada, mesmo achando que daria para esperar até a manhã seguinte, preferiram assim. 


—O… Seu irmão… —Hesitei tentando criar uma desculpa convincente. —Bom Nina, ele saiu de casa a pouco. Ele já (...)


—Mentira! —Ela gritou em sussurro do outro lado da linha. —O que você falou pra o meu pai aquela hora?! Me conta tudo! Eu vou aguentar. —Pediu em choro. 


  Quando a operação acabou eu realmente liguei pro pai dele e expliquei tudo, mas não conseguia entender como isso chegou os ouvidos de Nina, já que quando eu falei tudo Carlo, pai dele e meu padrinho, ele estava no supermercado sozinho. 


—Eu ouvi meu pai falar pra minha mãe de hospital e do Lucca, mas quando eu perguntei, eles mandaram eu ir dormir. Disseram que eu não tinha que me preocupar! —Dizia chorando baixinho e parecia que ela por vezes abafava o choro e os soluços. 


—Nina. Está bem. Primeiro, calma. Está tudo bem com o seu irmão agora. 


—Me deixa falar com ele, cadê ele?!


—Nina, não dá para falar com ele agora, ele está dormindo. Mas está do meu lado, tá bem? 


—Mentira! O Lucca nunca dorme cedo! 


  Fato? Sim! Lucca realmente nunca dorme cedo, porém achei que seria demais contar pra uma criança sobre anestesia geral. 


—Realmente não. Seguinte, essa história de hospital é verdade. Ele passou mal, ficará internado alguns dias e está dormindo agora porque remédios o deixaram com sono, mas ele está aqui do meu lado. Posso ligar de vídeo para que possa vê-lo. —Ela assentiu.


  Então mudamos para o vídeo, Nina estava escondida, o som abafado da sua voz era porque ela estava debaixo de um edredom lilás, provavelmente na tentativa de não ser ouvida. 

  Não tenho irmãos, mas sei o quanto Nina é próxima do Lucca, eles são muito unidos, mesmo com os cerca de nove anos de diferença. Ele se mudar foi muito dolorido pra ela e agora ele estar assim vai doer-lhe ainda mais. 

  Lucca dormia e eu rezava para que ele não despertar-se é falasse com Nina completamente grogue ao ponto dela perceber.

  Mas acho que minha reza não foi suficiente… 

  Enquanto eu tentava explicar para Nina o que ele tinha sem dizer de fato para não assustar ela, inventando uma virose e a Nina sem entender como eu não estava com medo de pegar o vírus e eu tentava mentir de forma convincente, ele despertou. Não sei que parte que ele ouviu porque eu só vi que ele estava desperto quando ele me chamou baixo tocando meu braço. Já que eu estava em pé perto dele, enquanto falava com a Nina. 


—Malu. —Disse ao me tocar o que me fez encarar suas faces cansadas. Seus olhos pareciam pesar, e ele parecia meio desnorteado. —A Nina… Tá com virose? —Disse baixo pausado.


—Não Lucca, você está com virose. —A própria Nina explicou pelo telefone. 


—Eu não tô com virose… Deixa eu ver ela? —Pediu-me. —Tadinha da minha irmãzinha, virose é péssimo. —Disse completamente perdido.


—Lucca, sua irmã não está com virose. —Afirmei lhe dando o telefone. 


—Você tá com virose Nina? 


—Lucca, estás bêbado?! —Nina questionou. 


  Ele tardou um pouco pra responder o questionamento da irmã, chegou a fechar os olhos e eu achei que ele iria dormir de novo; afinal ele estava assim, desde o centro cirúrgico, falava umas poucas palavras às vezes até coisas sem nexo algum e apagava. Ele está completamente grogue, chegou a dizer que me amava, que era apaixonado por mim, só pra vocês terem noção do quão desnorteado ele estava.

  Mas apesar de desnorteado, ele pareceu ter noção do que aconteceu


—Anestesia. —Respondeu completamente baixo, abrindo os olhos. 


—Anestesia?! 


—Ele fez um… Exame Nina. Teve que tomar anestesia. —Menti, mas tentem mentir perto de um recém operado, Lucca me desmentiu porque não notou que eu fazia isso pra não preocupar a irmã dele.


—Não. Não foi pelos exames, Malu, foi pela cirurgia. 


—Cirurgia?! —Questionou, mas Lucca nesse instante apagou de novo e quase deixou o telefone cair, só não caiu porque eu peguei. 


—Que história é essa de cirurgia, MARIA LUÍSA?! 


  Nina gritou do outro lado da linha, esquecendo de todo o seu esconderijo, o que fez sua mãe aparecer em seu quarto e questionar: 


—Nina? —Soou gentil. 


—Por que tu não me disse que o Lucca tinha operado mamãe?! Que que ele tem? —Ela desabou a chorar, anulando completamente a ideia de se esconder. 


—Apendicite, minha filha. —Disse abraçando a menina. —Mas quem te falou isso? 


—O próprio? Lucca, mãe! Que que é apendicite?! 


—Seu irmão te ligou? 


—Não mãe, eu liguei pra ele, mas a Malu atendeu e eu falei com ele. O que é apendicite? 


  Ela insistia na pergunta, preocupada. A melhor forma que achei de acalmar ela, foi explicar com calma o tema que eu mesma dominava por já ter tido isso. Expliquei tudo, mostrei até mesmo as cicatrizes que eu tinha a ela. Que ficou mais tranquila por saber que ficaria tudo bem.


—Certo. Nós vemos no próximo sábado, minha afilhada, obrigada por estar com ele Malu.


—Imagine madrinha. Sei que se fosse comigo ele cuidaria também. Como cuidou mesmo pequeno. —Sorri e me despedi dela. 


  Isso era uma verdade, quando eu tive, Lucca mesmo criança quis cuidar de mim quando eu voltei pra casa. Ele ficava pedindo aos pais para me ver e quando vinha e sabia que eu não poderia brincar com ele como das outras vezes, ele inventava alguma coisa que podíamos fazer juntos para eu me divertir com ele, bom tempos… 




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