Fale Agora — Capítulo 1 — Sabrina Gomes



O motor do carro ronronava baixo, quase tímido, como se soubesse do peso do silêncio que o preenchia. As ruas, molhadas pelo orvalho da madrugada, refletiam as luzes dos postes em linhas tremeluzentes, partículas de uma cidade que parecia sussurrar memórias antigas. Eu segurava o volante com firmeza, mas meus dedos tremiam levemente, carregando o impulso de lembranças que insistiam em se infiltrar na minha mente.


Ela estava ali, sempre ali, ainda que invisível aos olhos do mundo. Uma sombra suave que se apoiava nos bancos traseiros da memória, respirando junto comigo. Não era apenas lembrança; era presença. Cada curva, cada freada, cada semáforo vermelho despertava uma lembrança de sua voz, de seu riso, do perfume que se agarrava às minhas roupas e à minha pele sem permissão. Eu sentia a nostalgia como um líquido frio correndo pelas veias, impossível de ignorar.


O vento batia nas janelas fechadas, mas eu sentia sua ausência em cada estalo da lataria, em cada folha que passava zunindo pelas calçadas. E no silêncio, havia a cadência de uma promessa feita há anos, uma promessa que o tempo nunca ousou apagar.


O rádio murmurava Turning page do Sleeping at last, como se soubesse exatamente o que eu precisava ouvir — ou talvez para não ouvir nada, apenas preencher os espaços onde “ela” costumava estar. Cada verso vinha em forma de um sinal, eu gostaria de acreditar que fosse...


"I’ve waited a hundred years

But I’d wait a million more for you"


Passei pelo café que costumávamos frequentar. A porta ainda rangia do mesmo jeito, mas não havia mais a sua risada para preenchê-la. E naquele instante, o carro tornou-se um pequeno universo de memórias: os vidros embaçados refletiam meu rosto, eu estava cansada, e o reflexo de seus olhos parecia me observar, distante, mas impossível de esquecer. E ao fundo a musica continuava me teletransportando para as memórias que eu deveria esquecer.


"Nothing prepared me for

What the privilege of being yours would do

If I had only felt the warmth within your touch"


Respirei fundo. O cheiro do couro do banco misturava-se à lembrança do perfume dela. Um aroma que não pertencia a nada do presente, mas que ainda insistia em habitar o ar. Era estranho como o tempo podia levar tanto e, ao mesmo tempo, deixar intacto o essencial. Cada gesto, cada sorriso, cada promessa não cumprida ainda morava comigo, silenciosa, insistente.


O telefone tocou de repente, quebrando o ritmo silencioso da madrugada. Era Alice. Uma voz do presente invadindo o passado, me lembrando que a vida não espera pelos fantasmas que carregamos. Atendi com a mão ainda tremendo, e a voz dela trouxe contraste: leve, prática, viva. Enquanto falava, a sombra dela — a outra, a que havia partido — parecia se encolher, observando de um canto distante, desaprovando ou apenas contemplando.


Segurei o volante com mais força. O carro avançava, mas dentro de mim a estrada se duplicava: uma linha que levava ao agora, outra que me conduzia às memórias que o tempo não ousou apagar.


O carro parou diante do portão antigo, enferrujado, que rangia com um som familiar, como se cumprimentasse memórias há muito tempo adormecidas. O ar estava mais frio aqui, e cada sopro parecia arrastar comigo fragmentos de lembranças que eu não sabia mais se queria reviver. O chão molhado refletia a luz pálida da lua, formando desenhos irregulares, mapas invisíveis que guiavam meus passos — ou talvez apenas me lembrassem do caminho que havia perdido.


Ao abrir a porta, o vento invadiu o carro, carregando consigo o cheiro de terra úmida, folhas secas e aquele aroma indefinível que me lembrava dela. Fechei a porta atrás de mim, e o clique metálico soou como uma sentença: estava aqui, mas ela não. E, no entanto, a sensação de sua presença permanecia, sutil, atravessando cada corredor, cada sombra que a luz da lua desenhava nas paredes gastas.


Entrei. O chão rangia sob meus passos, cada estalo ecoando como uma batida de coração antigo. Olhei ao redor, e tudo parecia exatamente igual e, ao mesmo tempo, mudado. O tempo havia passado, mas algumas coisas resistiam — a poltrona na sala de estar, encardida pelo uso; o espelho grande no hall, ainda refletindo não apenas o presente, mas também fragmentos de dias passados.


Foi diante desse espelho que senti seu espectro mais forte. Não era apenas meu reflexo que me encarava; era a sombra dela, moldando-se nas linhas do meu rosto, sussurrando memórias que eu não sabia se queria ouvir. Fechei os olhos por um instante e deixei que as lembranças descessem como chuva fina: risos compartilhados, discussões silenciosas, promessas sussurradas ao vento da noite. Cada imagem era vívida, quase tangível.


Abri os olhos e encarei meu próprio reflexo. Minha respiração formava pequenas nuvens no vidro frio, e por um instante tive a impressão de que ela estava atrás de mim, me encarando através do espelho, como se quisesse me lembrar de tudo o que fomos — e de tudo o que não fomos. Era doloroso, mas também reconfortante. Um aviso e um abraço, simultaneamente.


Peguei o telefone para verificar minhas mensagens, e Alice voltou a aparecer, sua voz atravessando a tela, clara e distante. Ela falava de coisas triviais, do cotidiano, mas a trivialidade era um consolo. A ligação me puxava de volta para o presente, para a vida que ainda existia fora daquele hall silencioso e carregado de lembranças. Senti, no entanto, que cada palavra dela era uma ponte frágil entre o ontem e o agora.


O relógio da sala marcou as horas com um tique-taque firme, insistente. Eu me aproximei do espelho de novo, tentando me convencer de que estava sozinha, de que tudo aquilo era apenas lembrança. Mas uma parte de mim sabia que a presença dela jamais me deixaria de verdade. Não em corpo, talvez, mas em memória, em sombra, em silêncio.


As paredes pareciam respirar junto comigo, e eu me vi sorrindo com tristeza. O tempo não apaga tudo, pensei. Ele apenas desloca, esconde e revela de formas que nos surpreendem quando menos esperamos. E naquele instante, diante do espelho, entre o passado e o presente, senti que o fio de nossa promessa permanecia intacto, invisível, mas firme.


A voz de Alice soava agora mais próxima, como se tivesse atravessado não apenas a linha telefônica, mas também a barreira que o tempo impõe. Ela falava com entusiasmo contido, narrando pequenas coisas — a rotina da manhã, um detalhe do trabalho, uma lembrança engraçada que compartilhamos — mas, para mim, cada palavra carregava o peso de um mundo distante, do cotidiano que continuava sem a sombra dela ao meu lado.


- Você está aí mesmo? - perguntou Alice, rindo baixinho. 


Era impossível não sorrir de volta, mesmo com o aperto no peito que a lembrança dela provocava. 


- Quando você está quieta dessa forma eu fico preocupada, sei que tem alguma coisa te incomodando muito, você quer conversar sobre isso? - Indagou.


- Eu vou ficar bem, só preciso colocar meus pensamentos em ordem. - respondi rápido para desviar o assunto e suspirei fundo, deixando que a respiração levasse consigo o peso das memórias.


E, de repente, no silêncio que se seguiu entre nossas vozes, senti novamente aquela presença. Não era física, mas era suficiente para que a minha pele se arrepiasse: como se ela estivesse no canto da sala, observando, julgando ou apenas assistindo à minha tentativa de existir no presente.


Fechei os olhos, tentando encontrar uma linha entre passado e agora, entre a sombra e a luz. Quando os abri, o espelho parecia mais profundo, mais silencioso, como se guardasse segredos que ainda não me permitia decifrar. Havia algo na penumbra do reflexo que me fez recuar um passo, quase sem perceber. Era um detalhe pequeno, uma nuance que não existia antes — talvez uma sombra que se alongava de forma estranha, ou apenas minha imaginação rendida à nostalgia.


Alice continuava falando do outro lado da linha, mas sua voz começou a se misturar ao sussurro do vento que entrava pelas janelas entreabertas. A sensação era de que o passado e o presente estavam se tocando, imperceptivelmente, como se a promessa que fizemos — a promessa que o tempo não apagou — estivesse prestes a se revelar em algo inesperado.


- Você ainda pensa nela? - perguntou Alice de repente, e a pergunta caiu como uma pedra no lago calmo. Era direta, mas não havia julgamento, apenas curiosidade. Respirei fundo, sentindo o peso de cada palavra. Não havia como mentir. Não podia.


- Todos os dias. - murmurei, quase para mim mesma. 


A voz dela — a de Alice — ficou em silêncio por um instante, e nesse instante, algo mudou no ar. O relógio tique-taqueava mais alto, ou talvez fosse apenas a minha percepção alterada pela presença que ainda me cercava.


- Já faz 8 anos, Aurora! Você sabe que eu te amo e que durante nosso tempo juntas eu sempre fui compreensiva na esperança de que você voltasse a se permitir novamente, sempre tive esperanças de que um dia você iria reconhecer o esforço que eu fiz durante esses anos ou o amor que eu sinto por você... E então finalmente se entregaria para mim, como se entregou a ela. Ou você supera isso, ou nós terminamos, eu não vou viver o resto da minha vida no meio desse seu triângulo sentimental com um fantasma do seu passado.


Quando ela desligou, o silêncio se tornou absoluto. O espelho me devolvia apenas meu próprio reflexo, mas a sensação persistia: ela estava lá, invisível, esperando. A promessa pairava no ar, sutil e firme, pronta para desafiar o tempo e lembrar que certos laços não se desfazem, mesmo quando tudo ao redor tenta fazê-lo.


E enquanto a noite avançava, eu fiquei ali, parada, respirando devagar, ouvindo o eco de minha própria respiração misturar-se ao sussurro do vento, consciente de que aquele seria apenas o começo — de lembranças, de encontros, de segredos que ainda precisariam ser revelados.


Comentários

  1. Cada palavra , cada estrofe é de uma intensidade sem palavras .
    Completamente apaixonada.

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  2. Que profundidade nas palavras, escreve com a alma ❤️

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  3. Poético, com coerência e coesão, com belas referências de grandes autores e um escritora que tem muito talento e belas referências do clássico. Um escritora em ascensão. Ansiosa para os próximos prosa & poesias.

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  4. Gostei muito da forma como você trabalha o conflito emocional sem precisar exagerar nos acontecimentos. A fala da Alice é o ponto mais forte do trecho, porque ela traz um dilema muito humano: ninguém consegue competir para sempre com uma lembrança idealizada. O "triângulo sentimental com um fantasma do passado" foi uma frase excelente.

    O final também desperta curiosidade de um jeito muito natural. A atmosfera fica densa, silenciosa e deixa aquela sensação de que existe algo maior prestes a acontecer. É um trecho que prende pela carga emocional mais do que pela ação, e isso costuma marcar a gente que lê.

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