Uma História MaLucca — Capítulo 4 — Heloísa Consone


 Maria Eduarda Kolk Giordanni


—Eu não vou no hospital por causa de uma misera virose! Vão rir da minha cara! Falar que eu sou um exagerado. 


  Palavras do meu querido primo… Lucca está puto por Maria Luísa ter me ligado pra ver se eu conseguia convencer ele de ir pro hospital. Ela tinha me ligado de vídeo e eu podia ver nitidamente que meu primo não tava com uma simples virose, Malu disse que ele tava febril, tinha vomitado não estava conseguindo comer nada porque tudo que ele comia ele passava mal; além de estar com uma forte dor abdominal, mas ele tá tão mal que vomitou o comprimido que tomou pra dor.

  Eu preciso que convencê-lo de deixar a Malu levar ele pra um pronto socorro, eles moram na Argentina, os pais dele estão aqui no Brasil, não tem como outra pessoa dar um jeito, eles estão sozinhos lá, não vou ligar pro meu tio e dizer encarecidamente que o filho dele tá mal, não vai adiantar de nada fazer isso agora! Posso avisar depois, o que preciso agora é que ele vá num médico!  


—Antes tu estar com uma virose e ter certeza disso do que estar com uma coisa mais séria e só descobrir tarde mais! Fora que não está conseguindo comer nada, você vai ficar fraco, vai desidratar, Lucca, não consegue nem tomar água, não vão te expulsar do hospital sem no mínimo te darem um soro na veia! Vai, você precisa, tá bem? —Eu estava muito preocupada, ao ponto de que lágrimas começaram a ameaçar sair de meus olhos. E como se essas não tivessem encontrado espaço em meu rosto, foi como se elas caíssem em minhas cordas vocais, falei totalmente cortada. —Se não for por você, vai por mim, vai pela sua mãe, pelo seu pai, pela Nina, por qualquer pessoa! Mas vai, se cuide porque se estivesse ai, eu iria querer estar ao seu lado segurando a sua mão, cuidando de você e principalmente te obrigando a ir num hospital! Por favor, Lucca! 


  Conclui chorando, quem visse iria jurar que eu implorava e talvez eu fazia isso mesmo! Ele é meu primo, claro que eu quero o seu bem!

  Só não esperava que ao olhar pra ele seus olhos verdes também estariam em lágrimas. 


—Tá bom. —Ele limpou o rosto. —Eu vou. —Soou ainda cortado e deu um suspiro. —Mas por favor, não deixe meus pais, sua mãe saber, eu não quero preocupar ninguém. 


—Tá bem. —Assenti já mais calma. —Espero que fique tudo bem. 


—Vai ficar, prima. É simples, mas tem razão, melhor eu no mínimo tomar um soro. 


—Exato. Quero te ver bem. 


—Vais ver. —Ele sorriu. 


  Nos despedimos, eu dei um suspiro, queria chorar, estava com medo do que se passaria, e se a Malu estivesse certa? Ela sabe, por mais que teve isso pequena, ela sabe. Tá bem, ao menos convenci de ir pro hospital, se for sério ou não vão dar um jeito. 

  Me dirigi até o banheiro, precisava lavar o rosto antes de voltar para a sala. Meus pais, minha avó, meu primo, estavam todos na sala e eu não podia explicar que tinha chorado e muito menos o porquê, Lucca pediu pra eu não dizer, e tenho certeza que se dona Giulia (minha mãe) souber vai ligar pro tio Carlo na mesma hora! 

  Entendo ele não querer preocupar ninguém, acho que no seu lugar eu também faria o mesmo. Espero mesmo que fique tudo bem. 


—Duda? —A voz de Diogo soou e vi seu reflexo no espelho, não me adiantava tentar esconder a cara de choro. —O que foi? Aconteceu algo com o Lucca? —Questionou, ele tinha visto quem estava me ligando quando eu pedi licença pra atender. 


—Eu não sei. 


  Tornei e comecei a explicar tudo que sabia e no meio do relato eu comecei a chorar e Diogo me abraçou. 


—Entendi. —Disse passando a mão sobre meus cabelos. —Mas fica calma, mesmo que for algo mais sério ele vai ficar bem. Sabe a Laura? —Assenti com a cabeça. —Ela tava contando uma vez que teve isso daí quando tinha quatro anos, quando a gente tava lá na casa da vó da Isa e quando saímos da piscina a Isa questionou ela da cicatriz e daí… Esquece o contexto não importa. —Ele balançou a cabeça velozmente. —Enfim, ela teve e está bem. E como tu disse que ele começou a ter dor ontem não deve estar sério ainda, a Laura explicou que demora um pouco pra ficar perigoso. 

—-É tem razão, a Malu me disse a mesmíssima coisa. Independente do que for ele vai ficar bem. Mas valeu, acho que estou mais calma agora.


—Imagine, maninha. —Ele disse e me deu um beijo na testa antes de me soltar. —Agora lava esse rosto que a vovó falou para irmos jantar. 


—Tá bem, maninho. —Assenti e ele sorriu, me esperou e então fomos “obedecer as ordens de Dona Elza”. 


  Não somos irmãos, somos primos, mas como convivemos muito juntos começamos a nos considerar assim, principalmente depois que muitas pessoas começaram a nos questionar se éramos irmão ou até gêmeos, mesmo que tenhamos uma certa diferença de idade, atualmente Diogo tem vinte anos e eu tenho dezessete, mas ele não é nem um pouco alto e nunca foi! Quando éramos mais novos, aos doze anos ele tinha praticamente a minha altura, mesmo que eu tivesse nove anos. Acontece que enquanto ele sempre foi consideravelmente baixo, eu sempre fui alta, levando em conta que sou mulher; ele é mais alto que eu, mas ainda sim tem uma altura considerada baixa pra um homem. 

  Enfim, comemos, fiquei esperando notícias sobre meu primo sem nada dizer a meus pais, eu estava me sentindo errada por isso, mas Lucca tem razão melhor não fazer alarde. 


“Está sendo medicado, logo fará exames” —Li a mensagem que Malu me enviou pelo celular do Lucca aquilo me deixou mais tranquila, consegui dormir em paz depois de saber disso.    


Comentários

Destaques

Sol em Brasa, Tempestade Rara — Sabrina Gomes

O que o Algoritmo não vê - Aysllander

As pessoas — Aysllander