Papel Picado — Eu não sou poeta

Rasguei pela manhã meus poemas,
voaram fagulhas de papel pelo ar,
respirei a fotossíntese dos meus problemas,
suspirei meu sentimento que estava a voar.
A foto, síntese das letras, formam grafemas,
perguntas questionam dilemas
que nos proíbem de questionar.

Transformei em arte o sopro da vida,
criei personagens, lugares, comida.
Transfusarei meu sangue vermelho ao oxigênio,
parafraseei linhas que jamais serão lidas,
parafusei parafusos confusos que usei.
Tentarei no próximo milênio,
as mesmas linhas que já usei.

Fiz chover papel picado,
relato de um coração destroçado.
Fiz chover lágrimas de um olhar carregado,
fruto caído de um pé cortado.
Antigo, amassado.
Tudo que havia passado.

Hoje faço.
Rasgo aquilo que posso,
mas nunca esqueço.
Digo que nunca quis isso,
enquanto choro e soluço.
Tento colher mas tá tudo escasso,
às vezes rezo o pai nosso,
pago até aquilo que não sei o preço,
flerto com o compromisso
e com o inverno russo.

Vento, Ventania,
leva-me tudo que escrevo,
traga-me de volta tudo que escrevia.
Vento, Ventania,
faça me de mim longevo,
para que possa voar tudo aquilo que eu via.

Comentários

  1. Uma verdadeira arte de como alguns sentimentos nao podem ser guardados e sim lançados ao mundo

    ResponderExcluir
  2. E o que seria de nós se não fosse a arte de uma boa poesia?

    ResponderExcluir
  3. Amo a sensação de não saber se li ou fui lida... Parabéns e obrigada por esta arte em palavras 💖

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Destaques

Sol em Brasa, Tempestade Rara — Sabrina Gomes

As pessoas — Aysllander

Vermelho em Nós — Sabrina Gomes