Primordial — Capítulo 4 — Tribalcilinder
Entre o Vinho e a Ansiedade
O ponteiro do relógio parecia mais lento… as horas não passavam.
Eu só queria chegar logo no hotel… não conseguia pensar em mais nada
Desci a escadaria do hotel rapidamente… parecia maior que o normal.
“Preciso me acalmar.”
O vento batia no rosto enquanto eu curtia o caminho nada convencional em direção ao restaurante Il Comandante.
Será que ela tá hospedada lá? Se tiver, ela subiu muito da vida.
Depois de tanto tempo, porque só agora ela voltou?
A cada quarteirão uma dúvida surgia em minha mente.
Ao chegar, parei diante da fachada do hotel. A construção imponente, iluminada pelas luzes suaves da noite de lua cheia, chamava atenção... mas naquele momento, meu olhar estava fixo na porta, aguardando a chance de ver Anna.
O restaurante fica no último andar, com elevador próprio para clientes.
Até porque era um dos principais Rooftoop da cidade.
“Boa noite, tudo bom? Suas chaves por gentileza.”
“Aah sim… às chaves, tá aqui.”
Não tô acostumado com manobristas, é realmente necessário?
O hotel era lindo, mas não me sentia confortável com tanta luxúria, espero que meu cartão tenha limite pra isso.
“Boa noite senhor, hospedagem ou restaurante?”
“Boa noite, restaurante por gentileza.”
“Elevador à sua esquerda no último andar, bom apetite senhor e seja bem vindo.”
“Obrigado.”
Local é lindo, bem decorado, com mesas modernas, e esse cara de smoking me olhando, o que será que ele quer comigo?
“Boa noite Sr, seja bem vindo, o Sr já tem reserva?”
“Oi? Reserva? Ah precisa?”
E agora? O que eu faço?
“O Sr não tem reserva?
“Tenho sim eu não tava prestando atenção na pergunta, desculpe.”
“Procura aí por Anna…”
“Anna de que Sr?”
Como vou lembrar o sobrenome dela agora?
LinkedIn é claro.
“Só um momento… preciso responder uma mensagem importante.”
Boa, Lucca. Agora é só pesquisar no LinkedIn sem deixar ele ver.
Deixa eu ver…
Anna Bellarosa.
Mas é claro. Bellarosa.
Eu espero que ela tenha feito reserva.
“Voltei, eu precisava responder.”
“Anna Bellarosa.”
“Ah, perfeito. A Sra. Bellarosa. Queira me acompanhar, por gentileza.”
Ufa. Escapei.
Curiosamente, a mesa era diferente das demais. Parecia uma área VIP, com vista privilegiada para a sacada.
A paisagem do mar Mediterrâneo me acalmou assim que meus olhos a encontraram. Pedi uma taça de vinho enquanto observava as horas no relógio de pulso: 19:40.
Eu tinha marcado o encontro para as 19:30.
Dez minutos.
Ainda estou na margem.
Após a taça de vinho, senti meu corpo relaxar, mas não o suficiente para esquecer que estava ansioso para ver a Anna.
A vista do Mediterrâneo ajudava.
Lá de cima, a cidade parecia menor.
As luzes dos prédios disputavam espaço com as estrelas, e por alguns segundos consegui me distrair observando o movimento lá embaixo.
O restaurante era elegante. Talvez elegante demais para mim.
Flores sobre as mesas, velas perfumadas, móveis modernos...
Tudo parecia ter sido cuidadosamente pensado para impressionar alguém.
Funcionava.
Eu já estava impressionado.
E preocupado com o valor da conta.
Outra olhada no relógio: 20:10.
Fixo meus olhos na porta do restaurante e, por alguns segundos, sinto o ar faltar nos pulmões.
Anna.
Ela acabou de entrar.
O vestido vermelho chamou minha atenção primeiro.
Depois os cabelos soltos.
Depois o sorriso.
E então todo o resto simplesmente deixou de existir.
Me levantei num reflexo.
Sem plano.
Sem discurso.
Sem saber o que fazer.
Só um pensamento repetia dentro da minha cabeça:
Não pareça um idiota.
Não pareça um idiota.
Não pareça um idiota.
"Boa noite, Lucca",
Anna beijou meu rosto suavemente.
“Boa noite.”
As palavras morreram na minha garganta por alguns segundos.
“Você está linda.”
As bochechas dela ficaram rosadas.
“Obrigada Lucca, muito gentil da sua parte.”
"Há quanto tempo, Lucca."
"Pois não é... que surpresa boa."
"Vamos sentar?"
Perguntei enquanto puxava a cadeira para ela.
Troquei um olhar discreto com o garçom.
Não queria pagar mico levantando a mão para chamar alguém.
Não estava no meu bairro.
"Pois não, senhor."
"Traga para mim o prato da casa."
"E para a senhora?"
"Ah, eu quero o de sempre, por gentileza."
O de sempre?
E o garçom está anotando...
"E um Sauvignon Blanc para acompanhar."
Anna me olhou surpresa.
Agora é minha vez de impressionar.
“Então… o que te trouxe de volta?”
“Recebi uma boa proposta… depois de tanto tempo na França, decidi aceitar”
“Ah, então era na França que você estava.”
“Sim… não faz essa cara, você sabe que eu não tive culpa Lucca.”
“Eu não tô dizendo nada.”
Mas poderia ter dito.
Como se não existisse telefone, ou redes sociais.
O silêncio se fez presente naquela mesa para dois.
Eu não tirava os olhos dela, mas também não conseguia encontrar assunto.
Como esse pedido tá demorando.
Alguma coisa precisa acontecer.
Isso não parece um encontro.
Anna não parecia tímida, mas estava inquieta. De vez em quando olhava para o celular.
Será que espera alguma ligação?
Ou talvez esteja tão nervosa quanto eu?
Quem liga?
Ela está tão linda que eu poderia ficar admirando-a por horas.
"Você está hospedado aqui perto, Lucca?"
Ela mexeu nos cabelos.
É o sinal, Lucca.
Ou pelo menos eu espero que seja.
"Não. Estou hospedado em um hotel próximo à biblioteca BRAU. Conhece?"
"Não conheço."
"Poderíamos visitar qualquer dia desses."
Ela arqueou uma sobrancelha.
"Você está me convidando para um segundo encontro, Lucca?"
Um sorriso surgiu no canto dos meus lábios.
Agora era a minha vez.
"E por que não?"
Por alguns segundos sustentei o olhar dela.
"Eu estou solteiro."
Pausa.
"E tenho quase certeza de que você também está.”
Anna levou a taça aos lábios.
Um sorriso discreto apareceu no canto da boca.
"Talvez.”
A conversa avançava aos tropeços.
Uma pergunta aqui.
Outra ali.
E, vez ou outra, um silêncio constrangedor.
O garçom chegou com o pedido e serviu duas taças de vinho.
"Qualquer coisa que precisarem, é só me chamar."
Percebi ele fazer um sinal discreto para os músicos.
Ótimo.
Agora tem trilha sonora.
Peguei a taça como quem procura coragem no fundo dela.
A lua refletia sobre o Mediterrâneo.
Perfeito.
Lua.
Todo encontro romântico tem lua.
É isso.
"A lua está linda hoje."
"Está mesmo."
Minhas mãos suavam.
Ótimo.
Agora eu preciso dizer alguma coisa inteligente.
"Felizmente ela não é a única.”
Ela sorriu.
Ela sorriu.
"Eu estava com saudades, Lucca."
Por alguns segundos, esqueci da música.
Esqueci do restaurante.
Esqueci até da lua.
Tudo o que consegui fazer foi encará-la.
Talvez eu tivesse passado anos imaginando ouvir aquelas palavras outra vez.
Talvez eu não estivesse preparado para realmente ouvi-las.
"Você está tão diferente, Anna."
"Impressão sua."
Ela sorriu enquanto colocava os cabelos atrás da orelha.
"Continuo a mesma."
Por um instante, desviou o olhar para a taça de vinho.
"Mas talvez isso mude.”
Seis segundos de troca de olhares foram suficientes para me desconcertar.
"Eu trouxe um presentinho para você."
"Lembra que você gostava das histórias que eu escrevia?"
Abri um sorriso.
Como esquecer?
"Bom, esse não fui eu que escrevi."
Ela riu baixinho.
"Comprei em um antiquário e lembrei de você."
Fiquei sem jeito ao vê-la me entregar o livro.
"Obrigado... achei lindo. Mas não precisava."
Porra.
Um livro antigo.
Muito a minha cara.
E eu não trouxe nada para ela.
Mas como eu ia adivinhar?
Observei a capa por alguns segundos.
Enuma Elish.
O título me pareceu familiar.
Quando meus dedos tocaram o livro, um estranho arrepio percorreu meu braço.
Como se eu já tivesse visto aquele nome em algum lugar.
Eu só não fazia ideia de onde.
Quando a refeição terminou, restaram apenas o vinho, a vista do Mediterrâneo e nós dois.
O silêncio já não parecia tão desconfortável quanto antes.
Talvez fosse o vinho.
Talvez fosse a companhia.
Respirei fundo.
Devagar, deslizei minha mão sobre a mesa.
Só mais alguns centímetros.
Quando meus dedos tocaram os dela, Anna puxou a mão de volta.
Meu estômago afundou.
Merda.
"Desculpa..."
Retirei minha mão imediatamente.
"Eu pensei que..."
Nem eu sabia como terminar aquela frase.
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
Então Anna voltou a aproximar a mão.
Desta vez foi ela quem segurou a minha.
Mas não me olhou.
Os olhos permaneceram voltados para o mar.
Como se a vista fosse muito mais fácil de encarar do que eu.
Ainda assim, ela não soltou minha mão.
Os olhos permaneceram voltados para o mar.
Como se a vista fosse muito mais fácil de encarar do que eu.
"Vamos marcar de jantar novamente?"
A pergunta veio suave, quase levada pelo vento que soprava da sacada.
Por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ela.
"Mas é claro."
Sorri.
"Eu gostei da comida, da vista do restaurante e de você."
Anna abaixou a cabeça, escondendo um sorriso tímido.
Pronto.
Agora eu nunca mais vou esquecer esse sorriso.
Existem momentos tão bons que não vale a pena interromper.
O vinho estava excelente.
A vista para o Mediterrâneo trazia uma paz difícil de explicar.
E a companhia...
Bom, a companhia era perfeita.
O tempo passou mais rápido do que eu gostaria.
Quando olhei para o relógio, já passava das 21h40.
Como isso aconteceu tão rápido?
Procurei o garçom discretamente com o olhar.
Dessa vez ele entendeu.
Poucos minutos depois, a conta chegou.
EUR 458.
Engoli seco.
Lá se vai minha reserva de emergência.
Pelo menos eu vou passar fome feliz.
"Lucca, vamos conversar durante a semana?"
"Com toda certeza."
Por mim, a gente poderia continuar conversando agora.
Ela sorriu.
Droga.
Ela precisava parar de sorrir desse jeito.
Fica difícil pensar.
Deixamos o restaurante alguns minutos depois.
Eu ainda procurava qualquer desculpa para prolongar aquele momento.
Entramos no elevador.
Anna apertou o número nove.
Olhei para o painel.
Depois para ela.
Depois para o painel novamente.
"Nono andar?"
"Sim."
Demorei alguns segundos para entender.
"Você está hospedada aqui?"
Ela assentiu.
Claro que está.
Até o hotel dela era sofisticado.
E eu preocupado se meu cartão tinha limite.
O elevador começou a subir.
Rápido demais para o meu gosto.
Quando as portas se abriram, seguimos pelo corredor em silêncio.
Dessa vez, um silêncio confortável.
Então ela parou diante de uma porta.
"É aqui."
Assenti.
E, de repente, todas as frases inteligentes que eu tinha ensaiado desapareceram da minha cabeça.
Ficamos nos olhando.
Cinco segundos.
Talvez dez.
Não faço ideia.
Meu coração estava ocupado demais para contar.
Lentamente me aproximei.
Beijei seu rosto.
Por um instante, meus lábios permaneceram próximos demais do canto da boca dela.
Quando me afastei, Anna continuou me encarando em silêncio.
Quase avancei.
Quase.
"Boa noite."
Respirei fundo.
"Foi muito bom te rever. Obrigado pelo livro... e por essa noite."
Ela continuou me olhando por mais alguns segundos.
Longos segundos.
"Boa noite, Lucca."
Fechei os olhos por um instante.
Boa noite, Lucca.
Você é um idiota.
Ela fechou a porta lentamente.
Por um instante, tive a impressão de que ela esperava alguma coisa.
Talvez uma palavra.
Talvez uma atitude.
Talvez apenas mais alguns segundos.
Mas a porta acabou se fechando.
E eu fiquei do lado de fora.
Parado.
Sozinho.
"Eu sei que vou me arrepender disso."
Balancei a cabeça negativamente.
Após essa tragédia, segui até a calçada do hotel.
A noite estava agradável.
A lua continuava iluminando o Mediterrâneo ao longe.
Peguei o livro que Anna havia me dado e o abri sem qualquer pretensão.
Apenas curiosidade.
Meus olhos encontraram um trecho aleatório.
"Quando o alto céu ainda não tinha nome,
E a terra abaixo ainda não tinha sido chamada por um nome;
Quando o caos primordial ainda reinava sobre tudo,
E a água salgada de Tiamat ainda não tinha sido misturada com a água doce de Apsu;
Quando nenhum deus ainda tinha sido criado,
Nenhum ser vivente ainda tinha sido formado;
Então foi quando os deuses foram chamados à existência."
Franzi a testa.
Caos primordial?
Será que isso existe?
Continuei lendo.
Tiamat.
Tiamat?
A dragão de cinco cabeças de Caverna do Dragão?
Isso não faz sentido.
Deve ser só fantasia mesmo.
Fechei o livro.
Olhei para o relógio.
22h23.
"É..."
Soltei uma risada baixa.
"Definitivamente eu bebi mais do que deveria."
Guardei o livro debaixo do braço.
"Melhor eu ir para casa.”
Sabia que conhecia o nome tiamat kkkkkkk
ResponderExcluirAguardando o próximo capítulo. Sem pressão... Sqn
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