Primordial — Capítulo 3 — Tribalcilinder
A Anna
A agência tava um caos desde cedo.
Gente entrando e saindo, telefone tocando, alguém reclamando em italiano, do outro lado do corredor… sexta-feira parecia pior naquele lugar.
E no meio disso tudo?
Minha mesa.
Lotada de pastas.
Telefone da escrivaninha toca.
“Me dê boas notícias, já avaliou o material que coloquei em sua mesa?”
Aquele ramal era do Giovanni, um dos sócios da agência.
E sinceramente? A última pessoa com quem eu queria falar agora.
“Estou terminando de avaliar! Tem alguma preferência em específico?”
“Não não, apenas estou ansioso… faça no seu tempo, confio na sua avaliação!.”
“Tudo bem… assim que eu terminar deixo o escolhido na sua mesa.”
“Ótimo.”
E eu nem tinha começado a avaliação.
Entre uma xícara de café e outra, eu avaliava as pastas espalhadas pela mesa.
Fotógrafos de várias partes da Itália.
E sinceramente? Giovanni tinha separado nomes excelentes dessa vez.
Matteo, Alessandro, Stefano, Lucca…
“Lucca…?”
Estranhamente parei por 5 segundos tentando buscar em minha memória de onde eu conheço um Lucca.
O nome na capa da pasta me parece familiar, vamos ver o que você sabe fazer Lucca.
Curiosamente após secar meu café da xícara, ansiosa sei lá com o que, vejo algumas fotos de casamentos, momentos em família, nascimento de crianças, pessoas tristes e felizes emoções bem capturadas pelas lentes.
“Esse Lucca sabe o momento certo de capturar emoções!”
Por um instante a garganta secou.
Biografia, Lucca Bertolazzi, idade 31 anos…
Soltei a pasta na mesa, sem acreditar no que meus olhos viam.
“É O LUCCA!”
“Chamou Senhora?” Minha secretária aparece na porta.
“A senhora está bem?”
“Sim estou! Joana fecha a porta pra mim por favor, ficarei indisponível por algumas horas.”
“Tá certo senhora, qualquer coisa é só chamar”
“Madonna… Non è possibile.”
Depois de todos esses anos, o Lucca ainda está aqui no mesmo lugar… e bonitão.
Se controla Anna. Você é profissional.
Portfólio impecável! Tem até LinkedIn.
“Deixa eu ver se esse padrão de excelência também se estende às redes sociais.”
“Huum, muito bom, perfeito!”
A quem você quer enganar Anna?!
Mãos suando, garganta seca, coração acelerado.
Você já o escolheu, mas não foi pra vaga de fotógrafo.
“Será que eu ligo pra ele!?”
Mas eu vou precisar ligar pra ele, afinal eu preciso entrevistar ele.
Porque você tá tão estranha Anna?
Fazem anos que você não vê ou fala com o Lucca.
“Aah vou ligar.”
O celular pesa na minha mão.
Por um segundo eu só encaro a tela.
Chamando…
Isso é ridículo, Anna.
Respira.
“Alô?”
Silêncio.
Franzo a testa.
“Alô? Lucca, é você?”
Meu dedo aperta o celular um pouco mais forte do que deveria.
E então a voz vem.
“Sou eu! Quem tá falando?”
Reconhecimento imediato.
Antes da razão.
“Sou eu… Lucca. A Anna.”
Silêncio.
Longo.
Tempo suficiente pra eu sentir meu coração acelerar de um jeito completamente idiota.
Claro.
Ele não vai me reconhecer de primeira.
Faz anos.
“Lucca??”
“Oi… desculpa… tudo bem, Anna?”
Simples.
Direto.
Normal demais.
Como se eu não tivesse acabado de perder o controle por dentro.
“Tudo ótimo. E com você?”
Profissional.
Mantém o tom.
“Tô bem.”
Silêncio.
Esse silêncio começa a incomodar.
Eu podia desligar agora.
Mas não vou.
“Caramba… não esperava você me ligar.”
Ótimo. Começou.
“Faz um tempão, né? Achei seu contato no LinkedIn… sorte a minha.”
LinkedIn.
Perfeito.
Seguro.
Neutro.
“Você está na cidade, Anna?”
Como ele ainda fala meu nome assim?
Natural demais.
“Voltei faz alguns dias… tudo aqui me lembra você.”
Péssima ideia.
Anna.
Foco.
“Sério?”
“Sim… inclusive comprei um presente para você. Queria te ver.”
Não comprei nada, Anna sua idiota.
Ok.
Agora já falei.
Não tem volta.
“Você está livre hoje à noite? A gente podia se encontrar para conversar.”
Conversa.
Profissional.
É isso.
“Tô livre… você tinha algum lugar em mente?”
Ele aceita.
Rápido demais.
Ou talvez eu que não esperava que fosse tão fácil.
“Restaurante Il Comandante. O horário é por sua conta.”
Boa escolha.
Pública.
Controlada.
“Huum… 19:30 tudo bem pra você?”
“Está ótimo… então preciso resolver algumas pendências para chegar no horário do nosso encontro.”
Nosso encontro.
Não pensa nisso, Anna.
“Até mais tarde, Lucca… beijos.”
Silêncio.
Eu fecho os olhos por um segundo.
“Beijos.”
Sério, Anna?
Profissional mesmo.
“…até mais tarde.”
Coloco a mão no rosto sem acreditar.
Era entrevista… não encontro.
Salto da cadeira, percebendo que já não tenho mais tempo para escolher o fotógrafo com calma.
A pasta com o nome “Lucca” ainda está na minha cabeça quando pego minhas coisas às pressas.
Saio da sala quase voando para casa.
“Anna… você não tem mais 15 anos.”
Respiro fundo enquanto tento abrir a porta do carro sem arranhar a lataria… sem sucesso, porque minhas mãos não colaboram.
Enquanto a paisagem passa diante dos meus olhos, me pergunto.
O que eu vou comprar pro Lucca?
Bom ele gostava de história, arqueologia, mitologia etc.
Fitando os olhos pela janela, vejo um antiquário.
Perfeito, Anna… perfeito!
Alguma coisa ali vai agradar ele com certeza.
Antiquário simples de fachada, com uma sineta na porta.
Não parece ter movimento, e sinceramente… quem liga?
O cheiro de páginas velhas misturado com mofo entra em minhas narinas enquanto adentrava o recinto.
Coisas amontoadas, algumas prateleiras com ornamentos bem antigos, carregavam histórias em itens tão antigos quanto a arca de Noé…
Ou pelo menos era isso que aquele lugar queria me fazer acreditar.
“Boa tarde linda moça, em que posso ajudá-la?”
“Olá, não sei bem o que procuro, pode me ajudar? É um presente especial.”
“Tenho certeza que é.”
Disse o velho de cabelos grisalhos, enquanto ajustava o óculos no rosto para enxergar melhor.
“Bom temos de tudo um pouco, venha comigo aqui não é o lugar ideal para uma dama.”
Franzindo minha sobrancelha, acho estranho essa cordialidade toda para um antiquário.
Enquanto caminhamos observei a vestimenta do homem, um bom terno, e sapatos tão brilhantes quanto o esmalte vermelho em minhas unhas. Não fazia sentido com o ambiente tão bagunçado.
Entrando mais a fundo na loja, fui levada a um ambiente sofisticado, móveis rústicos, poltronas da idade média com estofados vermelhos, porém um ambiente com pouca iluminação.
Depente o velho abre os braços e as velas do lustre se acendem.
“Que foi isso?”
“Ah isso? Faz muito tempo que eu vinha tentando colocar essa automação, gostou?.” Risos…
“Diferente.” Que tipo de automação acende velas?
“Perdoe-me a falta de educação, prazer Vittorio, a seu dispor.”
“E você é a Anna… certo?”
“Como sabe meu nome?” Agora sim eu tô desconfiada.
“Seu crachá.” Ele aponta para meu peito.
“Aah bem observado.” Que velho mais estranho.
Olho em volta e vejo diversas telas na parede, uma mais linda que a outra, enquanto ele mexe em umas louças de porcelana.
“Aceita um café.?”
“Sim, por favor.”
Eu não vou beber, sem ele beber também.
Agora sim me sinto aliviada… ele serviu pra ele também.
Observo atentamente cada movimento dele enquanto se serve e senta na poltrona à minha frente, longe o suficiente para me trazer segurança e perto o suficiente para manter um diálogo.
“Então Anna… o que te trouxe ao meu humilde estabelecimento?”
“Preciso comprar um presente para um amigo.”
“Deixe-me ver…”
Ele vasculha a gaveta do criado mudo enquanto tira um relógio de bolso.
“Aqui… relógio do século XIX, feito de prata… pegue.”
O relógio era lindo, carregava o peso de um item valioso… pra quem gosta dessas coisas é claro.
“Você acredita que os antigos itens carregam a energia do seu antigo dono Anna?.”
“Sério? Nunca ouvi falar sobre isso.”
“SIIIIM.”
Ele se levanta eufórico.
“Os séculos passam, mas a energia continua conectada. Tudo está conectado.”
Agora sim ele parece um lunático, rodando com os braços abertos.
“Quer ver?”
“Eu?...
E agora o que eu faço.
“Eu não sei…”
Esse cara é maluco.
“Você não vai escolher o presente… ele vai te escolher.”
“A conexão existe Anna, acredite.”
Continuo olhando ele e tentando descobrir de qual hospício ele saiu.
Ele pega uma campainha de balcão, coloca sobre a mesa.
“Fique à vontade Anna, quando for escolhida, toque a campainha.”
“Maaas… ei… como vou saber qual é o item, espere.”
Virou as costas e foi embora, e agora o que eu faço.
Energia é… pura baboseira. A cara de Lucca essas coisas.
Se bem que… será que o Lucca ainda é o mesmo da infância?
Aí não pensa nisso Anna, ele sempre gostou dessas coisas, não tem erro é só comprar, vai dar certo.
“Tá mas e agora?”
O velho disse que o item vai me escolher, então vamos ajudar o item a se decidir… só espero que ele não seja do gênero feminino, não posso me atrasar esperando ele na indecisão… risos
“Tá vamos lá, espada na parede você vai me escolher.”
Que idiota, tá ficando maluca igual o velho.
“Já sei… livros!”
Livros nunca dão errado.
Na estante cheia de livros, vejo um mais lindo que o outro, uma verdadeira viagem no tempo.
Uns de capa dura, outros parecendo bloco de notas, porém nem tão velho.
Decamerão, Cancioneiro, O nome da rosa…
Como vou saber que fui escolhida?
Respiro fundo enquanto sento na poltrona, desolada sem saber o que procuro.
Com a mão no queixo, buscando me concentrar, vejo o relógio de bolso no braço da poltrona.
Esse certamente não me escolheu. Vou guardar no mesmo lugar antes que o velho sinta falta.
A gaveta do criado tá cheia de papel, que bagunça.
Sinto um calafrio ao tocar nas folhas enquanto guardava o relógio.
“QUE ISSO?”
Tirei minha mão o mais rápido que pude, sem entender o que aconteceu.
“Por que meu coração tá acelerado?”
“É só coisa da sua cabeça Anna, esse ambiente e esse velho estão te influenciando.”
Deixa eu ver o que tem nessa gaveta.
Papel, papel... Mais papel.
“Olha só…”
Enuma Elish, que nome estranho, as folhas são duras, será que o Lucca vai gostar?
Vou pesquisar no Google.
Porque as folhas de livros antigos são duras?
As folhas dos primeiros livros eram duras porque eram feitas de pergaminho (couro de animais, como cabra, ovelha ou bezerro) ou papiro (uma planta entrelaçada e prensada). Esses materiais eram naturalmente grossos e espessos, além de precisarem de capas pesadas de madeira para evitar que as folhas enrolassem.
Papiro: Criado no Egito Antigo, era feito com as hastes da planta do papiro, cortadas em tiras, sobrepostas e prensadas. O resultado final era mais parecido com uma cartolina flexível, mas ainda firme, e formava rolos que podiam atingir metros de comprimento.
Aah então é por isso que tem esses barbantes segurando as folhas.
“Isso sim parece ser antigo.”
“Então você me escolheu Enuma Elish”
Imagina se ele soubesse que escolheu a pessoa errada e que vai virar presente.
Sem mais delongas Anna, chama logo o velho e vai embora.
“Trring, trring.”
Após alguns segundos de ansiedade, vejo o velho vindo assobiando pelos corredores, com sua bengala chique da idade média…
“Ora, Ora, vejo que o universo se conectou.”
“Permita-me ver… Enuma Elish.”
Por alguns segundos eu vi o velho franzir as sobrancelhas, agora sim eu vi seriedade nele, mas porque agora… o que tem esse livro de especial?
Fitando os olhos em mim, vejo agora uma outra pessoa, não é mais o mesmo velho maluco que me recebeu hoje, e sinceramente tá me assustando… será que eu peguei o livro que não deveria pegar?
“Você está disposta a pagar o preço deste livro Anna?”
Me olha como se eu tivesse cometido um crime.
“Não sei, você não disse o preço dele, como vou saber.”
Tento sorrir para quebrar o clima tenso.
“O mundo gira… e para no mesmo ponto… será o raio caindo no mesmo lugar duas vezes?”
O velho tá alucinando de novo.
“Mas do que você está falando?”
“Pega seu livro, ele te escolheu, custa 100 euros.”
“100?”
Tá barato demais pra um item antigo, e porque ele tá falando assim comigo?
“Aqui o dinheiro.”
“Certo agora saí da minha loja, pega seu livro e tenha uma boa tarde.”
“Grosso estúpido!”
“Eu não tô acreditando que tô sendo expulsa da loja.”
Que cara mais estúpido, bipolar de merda.
“Sai, sai, tchau… pega seu livro e some.”
Com o livro em mãos, saio o mais depressa possível da loja.
Jogo o livro no banco do passageiro e saio com o carro pelas ruas estreitas da cidade.
“Eu fui expulsa da loja.”
“Maluco.”
“Eu sabia que esse papo de energia é loucura.”
“E onde já se viu, 100 euros em um item antigo?”
“100 euros não paga nem meu salão.”
Por falar nisso, eu tenho um encontro/ entrevista.
Encontro? Ai meus deus eu tenho um encontro, e com o Lucca.
“pisa no acelerador Anna..
Pisa.“
Agora fiquei nega curiosa. Espero por mais😉
ResponderExcluirTem muito mais 😁
ExcluirOk, agora eu to achando que a Anna é uma pessoa de confiança. Coitada, só teve uma chama dos 15 anos reacendidas.
ResponderExcluirEsse velho ai pode até ser maluco, mas uma coisa é certa tá rolando magia nessa historia ai
Será?! Kkk
Excluir"Será um raio caindo no mesmo lugar duas vezes?" 🤔 Então vai ter viagem no tempo? Looping dos mesmos acontecimentos?
ResponderExcluirCadê o casamento dela q eu fanfiquei??
Kkkkkkkkkkk, vai que...
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