As pessoas — Aysllander
não chegam fazendo barulho.
Chegam como o inverno:
silenciosas,
frias por fora,
mas carregando tempestades inteiras
debaixo da pele.
Você olha nos olhos delas
e sente.
Existe alguma coisa ali
tentando sobreviver em silêncio.
Como uma casa antiga
com rachaduras escondidas atrás da tinta nova.
Bonita à distância.
Desmoronando aos poucos por dentro.
E quase ninguém percebe.
Porque a depressão
raramente se parece com os filmes.
Às vezes ela veste roupas normais,
vai ao trabalho,
responde “tô bem” automaticamente
e sorri enquanto sente o peito afundar
como alguém preso no fundo do mar
assistindo a própria vida acontecer longe da superfície.
Às vezes ela aparece
na louça acumulada por dias,
nas mensagens não respondidas,
no banho adiado,
na exaustão absurda
de quem lutou a noite inteira
contra pensamentos que ninguém viu.
E a ansiedade…
Ah, a ansiedade é cruel.
Ela transforma o coração em uma sirene constante.
Faz a mente criar tragédias
com a mesma facilidade
que o céu produz relâmpagos antes da chuva.
É pedir desculpas demais.
Revisar dez vezes a mesma conversa.
Interpretar silêncio como abandono.
Acordar cansado
porque até dormindo
o corpo continua em estado de guerra.
É sentir culpa por descansar.
Medo de incomodar.
Pavor de não ser suficiente
mesmo fazendo tudo para ser amado.
E ainda assim…
essas pessoas continuam.
Continuam levantando da cama
como soldados voltando para um campo de batalha
que existe dentro da própria mente.
Isso deveria ser considerado coragem.
Porque há dias
em que sobreviver
exige mais força
do que o mundo está disposto a entender.
E talvez seja por isso
que as almas mais gentis
carreguem olhos tão cansados.
Elas conhecem a dor intimamente.
Conhecem o peso de chorar baixo
para ninguém ouvir.
Conhecem a sensação de estar cercado de pessoas
e ainda assim se sentir sozinho
como uma estrela perdida
num universo frio demais.
Mas mesmo feridas…
ainda oferecem amor.
E isso, para mim,
é uma das coisas mais bonitas
e mais tristes
sobre ser humano.
Porque existem pessoas
lutando para não desaparecer
enquanto se esforçam diariamente
para fazer os outros se sentirem vivos.
Eu ia comentar... Melhor deixar pra lá, o texto diz tudo! Excelente reflexão!
ResponderExcluirUm turbilhão de sentimentos ao perceber o quanto essas palavras fazem sentido em mim.
ResponderExcluirGratidão por essa leitura ☺️
ResponderExcluirPassa até um filme na cabeça lendo isso, triste porém realista e belo
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