Primordial - Capítulo 1 - Tribalcilinder

Entre o Mar e a Memória

Nunca fui o jovem dotado de talentos, não que eu me lembre, mas meus amigos da escola sempre diziam que minhas fotografias eram as melhores quando nos reunimos em alguma festa. Não me lembro da última vez que saí com meus amigos, se é que eu ainda tenho algum, mas aqui estou com uma câmera em mãos, capturando momentos felizes em frente ao mar Mediterrâneo. Coincidência? Talvez… As ondas se quebram nas rochas enquanto ajusto o foco da lente. Mas eu queria que o destino me proporcionasse um reencontro com Anna. Faz anos que não a vejo, nem sei por onde anda. Quando terminamos a escola, ela foi fazer faculdade fora do país e eu nunca mais tive notícias. Coincidência… eu acho.
Ou talvez eu só precise acreditar nisso.
"Luccaaa?"
“Foi mal, onde paramos?”
"Já acabou, você mesmo disse antes de perder o foco. Ainda precisa de mais fotos ou já podemos acabar com essa tortura? Meus pés estão matando"
"Aaaah… deixa eu conferir aqui", onde estava com a cabeça. Olhei as fotos que tirei, capturando o brilho nos olhos de Thiago e Lúcia, recém-casados. A felicidade deles me parece quase surreal, um reflexo de algo inalcançável… até então.
"Pronto, está tudo certo, já terminei. Agora é só esperar a edição, depois eu mando pra vocês escolherem. Obrigado por compartilhar esse momento."
“Espero que a edição não demore tanto quanto bater as fotos”
“Eu também espero”. 
Onde eu tava com a droga da cabeça?!”
Thiago e Lúcia… pombinhos recém-casados. Ver a felicidade dos outros cansa, nunca acho que vai acontecer comigo. É como dizem: sorte nos negócios, azar no amor! Aff que reflexão mais idiota de um ciclo interminável de trabalho e solidão.
"Vrrrrr... Vrrrr", celular vibra no bolso. Número desconhecido. Minha cara de estranheza, quem será? “Alô”, minha mente vagando em busca de respostas.
"Alô? Lucca, é você?"
Meu subconsciente reconhece a voz como uma voz familiar, mas não sei de quem é.
"Sou eu! Quem tá falando?"
"Sou eu, Lucca… a Anna." Tom eufórico.
Por alguns segundos, minha mente parou. Anna??!!! Aquela Anna? E agora, o que eu faço?! O que eu digo?
"Lucca??"
"Ooi, desculpa, tudo bem Anna?"
"Tudo ótimo e com você?"
"Tô bem."
Nesse momento, já tinha gastado meu estoque de palavras extrovertidas com ela, só me resta uma pergunta na cabeça: o que eu falo agora???
“Caramba… não esperava você me ligar.” 
“Faz um tempão, né Lucca? Achei seu contato no LinkedIn, sorte a minha.” 
“Você está na cidade, Anna?”
"Voltei à cidade tem alguns dias, tudo aqui me lembra você” 
“Sério?!” Fiquei sem entender o que ela queria.
 “Sim… comprei um presente para você. Queria te ver. Está livre hoje à noite? A gente podia se encontrar para conversar!"
Tá errado, isso tá errado, eu que deveria chamar ela pra sair. Mas eu não sabia que ela tava na cidade e nem teria coragem pra isso.
"Tô livre... Você tinha algum lugar em mente?"
No automático eu já estava marcando um encontro sem nem ao menos pensar direito. Mas calma aí, encontro?! Com a Anna?! Estou sonhando só pode!
"Restaurante Il Comandante, o horário é por sua conta, rsrs."
"Huum, 19:30 tudo bem pra você?"
"Está ótimo… então preciso correr para resolver algumas pendências para chegar no horário do nosso encontro. Até mais tarde Lucca, beijos."
“Beijos.”
Com o celular na mão, fiquei alguns segundos tentando assimilar toda essa informação, totalmente incrédulo! Eu tava em choque… um misto de surpresa e ansiedade, me deixando atordoado demais para raciocinar.
“Tá… melhor eu ir embora.” 
O som das ondas ainda ecoava em minha mente, mas era hora de sair dali e enfrentar o que me esperava. O coração acelerava enquanto me perguntava o que ela pensaria de mim agora, depois de tanto tempo. Cada passo me deixava mais nervoso.
Fiquei alguns segundos olhando pro celular, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Quando dei por mim, já tava indo embora.

Comentários

  1. Fotografar a felicidade dos outros deve cansar mesmo, quando a própria ainda parece distante.

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